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Mamãe Noel

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem.

Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor?
Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.

(Martha Medeiros-Dezembro de 1998).

Pedidos Ao Papai Noel

O senhor vai me desculpar se lhe falo com liberdade,
mesmo não tendo nenhuma familiaridade com o senhor.

Para mim, o senhor é sempre um pouco estranho,
e até acaba me resultando algo antipático.

Me desculpe, viu?!

Nos meus tempos de criança, lá na Espanha, o senhor não era protagonista do Natal.
Sabíamos mais ou menos que, nos países frios do norte da Europa, veneravam um tal de São Nicolau ou Santa Klaus, velho de barba branca e com um saco nas costas, que andava pela neve distribuindo presentes à criançada.

Para nós, Natal era o Menino Jesus, Nossa Senhora e São José, Belém e a estrebaria, a estrela, os anjos, os pastores, os reis magos…
O nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido de Maria.

Deus feito homem! Tudo isso simbolizado e vivido – com muita fantasia e emoção, com muita religiosidade – no presépio, tão carinhosamente preparado em todas as famílias católicas, às vezes com arte extraordinária.

Era a missa da noite de Natal e as cantigas próprias desse tempo litúrgico. Também, claro, os presentes familiares, as comidas típicas (o turrón, por exemplo) e as tradicionais representações cênicas (os pastorets na minha Catalunha).

Tudo, sempre, em torno ao Menino Jesus.

Ele era o Natal! Agora – me desculpe -, o senhor entrou no meio e… botou o Menino Jesus para fora do Natal!

Natal é o Papai Noel, Papai Noel é o Natal, e o Menino Jesus já era!

Francamente, o senhor está me incomodando.
O velho matou o Menino, penso às vezes.

E me dá raiva, viu?!

Pensando melhor, porém, sei muito bem que a culpa não é propriamente sua.
O senhor entrou nessa sem querer.
Foi metido no Natal deles.
Eles o sentaram em cima do Menino, e o negócio interesseiro que fazem com o senhor apagou a luz e a graça do Mistério do Natal.

Natal virou mercado, já antes de chegarmos a estes tempos diábólicos do Mercado Total.
E vira também, naturalmente, bebedeira e briga e esbanjamento e ofensa aos pobres que não têm nem casa, nem comida, nem calor humano.

Eu acredito que, se o senhor é mesmo São Nicolau, o que vai querer é que Jesus seja conhecido e amado e seguido. I
sso é o que querem todos os santos e santas de verdade.

Jamais o senhor pretenderia usurpar o Mistério do Natal, menos ainda para fazê-lo virar frivolidade e negócio.
Acreditando nisso, quero lhe fazer um pedido, senhor São Nicolau, o verdadeiro. Ou vários pedidos.

Sendo que Deus resolveu nos dar o seu próprio Filho, todo pedido é pouco…

Continue a entregar presentes a todo o mundo, sobretudo aos duros de coração e aos corações de criança.
Para os duros de coração, o sentido da justiça e da solidariedade e da partilha. Para os corações de criança, mais sonho ainda (utopia, necessária como o pão de cada dia), a esperança sempre maior, uma ternura do tamanho de todas as estrelas de Natal juntas e muita coragem e união para lutarem pelo Tempo Novo que Jesus veio inaugurar com o seu nascimento.
Ajude aos pobres e marginalizados do campo e da cidade, negros, índios e brancos, mulheres e homens, a conquistarem a terra e o pão, a casa e a dignidade, a cidadania e a festa.
A todas as autoridades deste mundo, vergonha, responsabilidade e espírito de serviço. E a todas as pessoas, aquele presente maior, que é o próprio Evangelho, a Boa Nova que os anjos de verdade cantaram nessa Noite, a mais bela da História humana, porque nela o próprio Deus nasceu feito humano, como nós, filho de mulher, criança e pobre…
Desculpe, senhor Papai Noel, se pensei mal do senhor, e muito obrigado se pedi bem!

Com um beijo em sua barba branca.

(Robert chied)